Jovem médico brasileiro planeja criar coração bioartificial

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Quando tinha dois anos de idade, o médico Gabriel Liguori foi operado de uma cardiopatia congênita diagnosticada ao nascer. Desde muito cedo, portanto, frequentou hospitais, em especial o Instituto do Coração (InCor). “O que poderia ser um trauma acabou virando uma paixão. Eu sempre fui aficionado por tudo que se tratava de hospital, doenças ou cirurgia, de maneira que a escolha pela Medicina foi muito natural”, comenta. Liguori, de 26 anos de idade, trabalha, em longo prazo, para construir o primeiro coração bioartificial, a ser realizado com tecidos feitos a partir de células-tronco.

No sexto ano da graduação, cursada na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e finalizada em 2014, Liguori já planejava o doutorado. Alguns meses depois, já em 2015, recebeu a notícia que fora selecionado como um dos 24 bolsistas da Fundação Estudar daquele ano – em uma concorrência de 80 mil candidatos na organização, que dá apoio financeiro e de orientação acadêmica para jovens com potencial de liderança.

 

Próteses

O projeto do médico objetiva a criação de próteses cardiovasculares para serem utilizadas durante a cirurgia cardíaca. No momento, o foco é a produção de vasos sanguíneos a serem implantados em cirurgias de revascularização miocárdica, as pontes de safena e mamária.

A primeira fase de desenvolvimento dessas próteses está sendo realizada junto à Universidade de Groningen, na Holanda, onde vive atualmente. Depois, está prevista outra, em São Paulo, na qual serão feitos os estudos pré-clínicos, testando os tecidos em animais, sob orientação do professor Luiz Felipe Moreira.

Liguori conta que a iniciativa passou a ser sua grande meta depois de perceber que o futuro da cirurgia, em praticamente todas as especialidades, estava convergindo para o transplante de órgãos artificiais. “Com isso em mente, passei a estudar a área de engenharia de tecidos e os grupos que vinham desenvolvendo pesquisas sobre isso. Logo comecei a me questionar qual seria o limite que poderíamos alcançar com essa tecnologia e, naturalmente, a ideia de um órgão inteiro produzido a partir de células-tronco do próprio paciente pareceu um verdadeiro desafio”, completa.

O médico explica que o doutorado configura apenas uma etapa, de muitas necessárias, a fim de tornar seu sonho realidade. “Outros desafios maiores, como a vascularização do tecido miocárdico e os mecanismos de condução elétrica no coração bioartificial, ainda deverão ser estudados e tudo deverá ser integrado para que possamos, no futuro, criar um órgão completo e funcional”, diz.

 

Vida acadêmica

Liguori ingressou na FMUSP em 2009. Ainda no primeiro ano, o então estudante já fazia parte de dez ligas acadêmicas. Com o tempo escasso, passou a focar as atividades nas áreas­ de cardiologia e cirurgia cardíaca, com atenção especial para a cirurgia cardíaca pediátrica. “Quando cheguei ao 3º ano, tive a oportunidade de fundar a Liga de Cirurgia Cardíaca Pediá­trica, para capacitar os alunos no aprendizado das cardiopatias congênitas, oferecendo a eles a oportunidade de participar em diversas atividades”, conta.

No ano seguinte, encarregado de apresentar a Liga em um Simpósio no Congresso Brasileiro de Cirurgia Cardiovascular, em Maceió (AL), Liguori participou das primeiras conversas e posterior criação do Departamento Brasileiro das Ligas Acadêmicas de Cirurgia Cardiovascular (DBLACCV), em 2013, dentro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular, sendo também eleito seu primeiro presidente.

“Meu projeto de gestão, quando assumi, foi cadastrar todas as ligas de Cardiologia e Cirurgia Cardiovascular do País ao DBLACCV e escrever o Manual Acadêmico de Cirurgia Cardiovascular”, diz. No final de 2014, Liguori formou-se em Medicina com honras, recebendo o Prêmio Prof. Dr. Edmundo Vasconcelos de distinção em Cirurgia.

Ainda durante a graduação, o médico teve diferentes experiências internacionais. Realizou, a partir de um processo seletivo interno na FMUSP, um intercâmbio na Universidade de Harvard (EUA), pelo qual também estagiou no Children’s Hospital Boston, onde acompanhou cirurgias cardíacas. Também estagiou em Londres, como parte de sua pesquisa de Iniciação Científica, realizada com bolsa da Fapesp e, durante um mês, pôde analisar a coleção de espécimes de corações com cardiopatias congênitas do Royal Bromptom Hospital para complementar seu estudo. Mas foi a experiência de um mês na cidade de Maastrich, na Holanda, pelo Programa de intercâmbio da International Federation of Medical Students Associations, que chamou sua atenção para o estudo de Medicina no país europeu onde atualmente mora.


Diferenças culturais

Diante das experiências fora do País, Liguori considera que exercer a Medicina no Brasil é um grande desafio, em especial no que diz respeito ao Sistema Único de Saúde, mas acredita que há vantagens, principalmente na qualidade do ensino e da prática médica. Para ele, diferente do que acontece nos EUA e na Europa, o estudante de Medicina das boas escolas brasileiras tem muito contato com o paciente e uma grande responsabilidade desde a graduação. Já no exterior, os estudantes muitas vezes terminam o curso sem terem feito um único atendimento médico sozinhos. ”O acadêmico brasileiro tem de conduzir os casos, sendo o responsável por realizar toda anamnese, exame físico e hipótese diagnóstica. Mas, naturalmente, tomando as condutas apenas após sua hipótese ser discutida com o médico responsável. Fora do País, acontece apenas o acompanhamento dos atendimentos pelos acadêmicos, sem autonomia para eles”, conclui.

Fonte: jornal Cremesp ed.336 – 05/2016

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