maio 4, 2017 A Anatomia e a Condição Humana

A Anatomia e a Condição Humana

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O estudo da Anatomia Humana como objeto científico requer pensamento crítico e reflexivo sobre a própria existência. Perceba alguns nuances neste artigo escrito pelo Prof. Dr. Marcus Alexandre Mendes Luz.

Em um único instante, o Homem é capaz de ultrapassar todo o plano do imaterial e projetar sobre o objeto de sua ação, o que há de mais profundo em seu ser. A Ação Humana traduzida dessa força incontrolável é única, e separa por um incomensurável abismo, nossa existência como ímpar dentro do amplo espectro da criação.
Cultivar no Humano o que é próprio do Humano, sem artificialismos, parece hoje contudo, ser uma tarefa mais desafiadora que a de cruzar oceanos em busca de novas terras com a tecnologia de Sagres ou pousar no Mar da Tranquilidade enquanto ouvíamos músicas a partir de sistemas transistorizados. A grande questão da Humanidade hoje é se podemos ainda reivindicar esse cognato.

Ao examinar uma única artéria e seu singelo trajeto em sintonia com as estruturas adjacentes ou sobrejacentes, podemos nos restringir ao maravilhoso milagre da anatomia topográfica, como poeticamente descreve Testut, qualificando o bisturi como aquele que zomba da estratigrafia corporal, ou podemos perceber sensivelmente o que escapa ao cadáver e que ele próprio constitui o melhor tratado de humanismo já escrito. Sem recorrer à filosofia, o cadáver resume em si o dilema da Condição Humana – o quanto percebo do outro em mim. É na prática da anatomia que, mais do que anatomia, aprendemos com o cadáver retirado de sua humanidade de forma brutal e aterradora, a perceber e respeitar o outro, tornando o impessoal algo mais próximo, real e necessário para o Homem contemporâneo – o pessoal.

O Homem impenetrável e seguro de seu papel na história universal e particular, não observa o outro como sendo à sua imagem e semelhança, sendo impossível uma humanização no individualismo. Quando examinamos e dissecamos com a pinça e o bisturi aquilo que se oculta aos nossos olhos sem percebermos que o cadáver representa mais do que tecidos, mas o outro e a mim, transformamos a ciência em algo unicamente material e imediatamente nos cristalizamos diante do mundo e tal qual um diamante, pensamos irradiar um brilho precioso, mas na verdade só expressamos a dureza da rocha. A indiferença que floresce dessa certeza, produz extensa e dolorosa ferida que castiga e tortura diariamente a faina da humanidade embrutecida. Onde está teu irmão Abel?

O exercício do pessoal é praticado com pequenas ações, observações sutis que incluem as pessoas que estão ao seu redor. Não há conduta perfeita, mas há um perfeito esforço em atender à essa conduta. O ensinamento por observação é mais eloquente que por lição; aprendemos condutas com condutas. Esse esforço é diário e enquanto a percepção do outro não for aquela contemplada minimamente na Sala de Anatomia com o cadáver, temos que refletir sobre aquilo que estamos nos tornando. Daí a importância fundamental do contato do acadêmico com o cadáver, lição de ética e humildade, nas palavras do eminente Renato Locchi, imprescindível e insubstituível na formação da pessoa enquanto pessoa.

Associada ao firme alicerce técnico e científico do estudo anatômico tenaz dentro da perspectiva da formação médica, a reflexão humanística deve ter raízes igualmente profundas e sólidas, capazes de garantir o entendimento que, além dos livros, do formol e das tramas neuronais, reside algo mais sublime, mais nobre, mais edificante e puro. O bom, o belo e o justo podem ser tocados quando optamos pela sua busca. Quando impregnamos de sentido aquilo que trabalhamos, o trabalho não é mais per se. Se o escopo é o outro e não o caminho que percorro até ele, inevitavelmente tendemos a nos afastarmos do impessoal, pois assim como vejo o outro como escopo, passo a ser o escopo do outro.

Sem almejarmos reciprocidade, devemos nos tornar verdadeiramente pessoa, pois tudo mais perece na eterna impermanência daquilo que é sensível e cognoscível.

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Prof. Dr. Marcus Alexandre Mendes Luz. Biólogo, Doutor em Histologia (2005) e Anatomia Humana (2011) pela Unicamp, Professor Doutor de Anatomia Humana na Faculdade de Medicina da Unilago, Supervisor do Núcleo de Pesquisa e Extensão do Curso de Medicina e membro do Comitê de Ética em Pesquisa na mesma Instituição. Membro do Conselho de Revisores do Journal of Morphological Sciences e pesquisador nas áreas de Anatomia Clínica e Plasticidade Celular.

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